Vilaverdense (também) é tomba-gigantes. TP: Vilaverdense, 1 – Boavista, 0

Publicado por em 15 Outubro, 2017

António Barbosa, Rafael Vieira e João Carneiro

Os rostos da felicidade

Há dias assim…felizes.

A vida é feita de histórias, de momentos e de glórias. Esses momentos que nos ligam à eternidade são compostos por homens (e mulheres também) que decidem, por vezes, vestir a sua capa de herói e investidos de um espírito lutador, que vem do mais profundo da alma, mesmo quando a luta parece desigual, não temem, não a viram a cara na adversidade e enfrentam a batalha com a certeza plena que a felicidade mora mesmo ali.

O futebol é um fantástico veículo de emoções, é através dele que muitas pessoas se esquecem da dureza dos dias e vivem momentos de esplendorosa felicidade, é por isso que a Taça de Portugal é a verdadeira festa do povo. Os pequenos vivem momentos de glória e por vezes são enormes, fazem das fraquezas a sua maior força, resistem e são felizes. Hoje, no Cruz do Reguengo, o Vilaverdense FC tomou para si o papel principal e fez-se grande. Enorme! Sublime. Soberbo. E um justo vencedor.

Começar pelo fim é, quase sempre, querer antecipar os momentos, mas é, neste caso concreto, sinónimo de alegria. É esse sentimento que se vive, estou certo, em Vila Verde desde o momento em que Rui Costa, árbitro portuense que apitou este jogo da taça, soprou pela última vez no apito. Estava consumado o feito. Estava escrita a história e o Golias acabava de sucumbir aos pés de David.

O dia era de festa e a tarde era de gala, o Boavista (que em tempos foi Boavistão) regressava ao Cruz do Reguengo, só que desta feita, bem diferente do Boavista de Setembro de 2012 (na altura jogava na extinta Segunda Divisão Zona Norte), desta vez fazia a sua aparição pela porta grande através da Taça de Portugal. As bancadas estavam repletas e só mesmo a atmosfera carregada de fumo, por causa dos incêndios que assolam o país, retiravam brilhantismo ao momento.

Tudo estava a postos para o grande jogo e o facto de o Boavista ter vindo a Vila Verde jogar na sua máxima força, só vem dar mais significado ao feito que os jogadores comandados por António Barbosa alcançaram.

O jogo começou com algum equilíbrio que a equipa comandada pelo bem conhecido Jorge Simão tentou depressa esbater, era certo e sabido que a missão reservada ao Vilaverdense FC neste jogo era ingrata, ora uma equipa que habitualmente comanda as intenções de jogo, neste embate, era suposto estar mais vezes a correr atrás da bola, mas os homens da Cruz do Reguengo não pareceram importar-se com isso e tentavam equilibrar, sempre que possível, o jogo.

A partida corria o seu curso até que Rui Pedro, ao minuto 11, rematou à barra da baliza de Pedro Freitas que depois segurou, sem grandes apuros, a recarga de Mateus, parecia que estava dado o mote para o jogo, mas não, a partir daí e até ao fim deste confronto, a baliza do Vilaverdense não viveu grandes apuros. Não, se está a ler esta parte do texto e a pensar que o autor desta prosa esta a delirar, acredite que não. Estou apenas a constatar um facto. Pedro Freitas, não teve que fazer, durante todo o jogo, mais nenhuma defesa apertada e isso atesta, o grande jogo que o Vila fez.

Voltando ao minuto 11, o Vila a partir daqui começou a soltar-se um pouco mais, a ser mais afoito e começou a vir ao de cima uma dupla de luxo, Ahmed e Latyr, este último, autor de uma exibição que fica na retina pela classe, lucidez e categoria na hora de fazer uma jogada, um passe, um corte e até no momento de socorrer um ou outro companheiro. Latyr foi um mestre, se calhar é injusto fazer um destaque individual no meio daquilo que o Vilaverdense fez, enquanto equipa no jogo de hoje, mas seria muito mais injusto não destacar a soberba exibição deste senegalês que parece que se o vento estiver mais forte é levado por ele, mas que hoje segurou e amarrou o jogo da sua equipa sendo ele um porto seguro sempre que fez falta.

Como Boavista estava incapaz, fruto da grande exibição do Vila, de se impor no jogo, os donos da casa, cada vez mais confiantes, começavam a acreditar que o sonho, afinal, era possível e no último suspiro da primeira parte, após uma falta cometida por Carraça sobre Rafa Miranda (num lance que podia e devia ter sido alvo de melhor critério disciplinar por parte de Rui Costa), o Vilaverdense chegou ao único golo do jogo. No momento da bater a bola, Ahmed colocou-a a sobrevoar toda a defensiva, enviando o esférico para a chamada zona morta da área e aí, ao segundo poste, o bombeiro de elite (é assim chamado pelo nosso comentador Guilherme Ramos) Rafa Vieira, surgiu como um foguete e empalmou a bola de tal forma que Vagner só a viu quando a rede estremeceu e a bancada do Cruz do Reguengo rebentou de alegria. Estava feito mais difícil. Estava feito o golo e a partir deste minuto mágico, havia uma certeza, para passar a eliminatória, os axadrezados, eram obrigados a marcar dois golos. Ficava a pergunta, seriam capazes? Eu respondo, não parecia e confirmo, não foram.

Na segunda parte, quando se esperava o cerco do Boavista à área do Vila, cedo se percebeu que António Barbosa tinha o antídoto certo para esse cerco e as flechas da frente, principalmente Rafa Miranda, mantinham a defensiva do Boavista sempre em sentido. Notou-se, nestes segundos 45 minutos, mais vontade, mais rapidez e maior acutilância dos boavisteiros, mas sempre sem causarem real perigo e sempre sem grande lucidez. Mérito todo do Vilaverdense.

O que era notório, era que o Vila podia ser feliz e quando Rafa Miranda, ao minuto 51, junto à linha de fundo, escangalhou os rins a Carraça e de seguida tentou colocar a bola na baliza, o que seria um golo magnífico, ficou-se com mais uma certeza, se quisesse ganhar, o Boavista, além de marcar os tais dois golos atrás referidos, teria de combater a (enorme) vontade de vencer dos jogadores da equipa da casa.

Os minutos foram correndo (sempre mais devagar do que a vontade dos adeptos do Vila e não só) e sentia-se que o Boavista queria mas não tinha nem arte, nem engenho para ultrapassar a bem estruturada defensiva do Vila e isso dava cada vez mais confiança a equipa da casa.

Nestes entre-tantos o jogo chegou perto do fim e a bola começou, aí sim, a rondar, cada vez mais, a baliza à guarda de Pedro Freitas que foi sempre, com uma calma enervante, capaz de segurar os cruzamentos e os remates da equipa da pantera negra sem grandes apuros.

Quando o assistente de Rui Costa, levantou a placa e mostrou que se jogariam ainda mais cinco minutos de compensação, já ninguém calava os adeptos da equipa da casa, já ninguém era capaz de suster as emoções e o tempo passou, sempre devagar, com um canto na direita, outro na esquerda e o último, novamente à esquerda, até que depois de passar o perigo se ouviu o apito final e todos, mesmo todos, percebemos que a glória está destinada àqueles que por meio da sua fé, do seu trabalho e da sua persistência acreditam que podem vencer. E foi tão-somente isso que hoje aconteceu. E que ninguém me diga que isto foi fruto da sorte ou foi um dia bom. Isto foi fruto, unicamente, do (bom) trabalho que o Vilaverdense tem vindo a fazer. Parabéns António Barbosa e restante equipa técnica. Parabéns à equipa. Parabéns à direção. O Vila é uma nação!

O Vilaverdense FC: um a um

Pedro Freitas – Segurança de aço;

Pedro Lemos – Eficácia a toda a prova;

Nené – Liderança na hora defender;

Rafael Vieira – Vestiu a capa de herói, realizou mais uma grande jogo;

João Caneiro – Lutador de início a fim;

Ibraima – Pêndulo capaz de estar em todo o lado;

Ahmed – Inspirador, dos pés dele saíram as melhores jogadas da tarde;

Latyr – Mestre e maestro, soberbo a defender, lúcido a atacar. Brilhante;

André Soares – Espera-se sempre mais deste jogador, mas o seu virtuosismo esteve lá;

Zé Pedro – Missão de grande combate, um batalhador;

Rafa Miranda – Foi desequilibrador que a equipa precisou nos momentos certos;

Jogaram ainda:

Elísio – Entrou para o ser combativo e conseguiu sê-lo;

André Salvador – É um poço de força aliado à boa capacidade técnica;

Vini – Veio dar maior solidez quando a equipa precisou;

No Cruz do Reguengo.

Tarde de festa.

Ficha de Jogo:

Local: Estádio do Cruz do Reguengo;

Árbitro:  Rui Costa (AF Porto);

Vilaverdense FC:

Pedro Freitas; Pedro Lemos, Nené (cap.), Rafael Vieira e João Carneiro; Ibraima, Latyr  e Ahmed (André Salvador, 73′), André Soares (Elísio, 70′), Rafa Miranda e Zé Pedro (Vini, 80′).

Treinador: António Barbosa.

Boavista FC:

Vagner; Carraça, Rossi, Sparagna (Rochinha, 72′) e Henrique Gomes; Idris (cap.) (Leonardo Ruiz, 80′), David Simão e Fábio Espinho; Mateus (Kuca, 68′), Renato Santos e Rui Pedro.

Treinador: Jorge Simão.

Cartões Amarelos:

Vilaverdense FC: nada a assinalar;

Boavista FC: Rui Pedro, 90+5′;

Cartões Vermelhos: nada a assinalar;

Golos: (1-0) Rafael Vieira, 45+2′.

Prémio Melhor em Campo VFC / Bola P’ra Frente: Rafael Vieira e Latyr

© Fotos de Joaquim Lima / Estúdios Lima (Vila Verde)

Sala de Imprensa

António Barbosa

Jorge Simão

Rafael Vieira

Eduardo Milhão

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